Você teria um minuto para ouvir a palavra de Tiago Cardoso?

Sim, eu estou conversando com você. Se você não torce pro Santa Cruz Futebol Clube, azar o seu: saiba que este é um ardoroso debate-crônica em prol do convencimento de uma ideia que não sai da cabeça deste que vos escreve há muitos anos – que Tiago Cardoso é o maior jogador da história da Cobra Coral do Arruda.

Se você torce, temos dois caminhos. Um: ou você concorda comigo, e aí eu lhe parabenizo pela sensatez. Dois: você não concorda comigo, e aí eu estou diretamente falando pra você, ser humano aí do outro lado.

Feito esse breve prólogo, começo minha tese-debate-crônica.

17 de julho de 2011. Nessa data, eu e mais umas quinze mil cabeças – todas corais – rumavámos em direção a João Pessoa, capital paraibana. O jogo seria contra o Alecrim, do Rio Grande do Norte.

Estávamos na quarta divisão do futebol brasileiro. Enfrentaríamos um clube potiguar em solo paraibano, por escolha deles: era mais rentável ter 15 mil pernambucanos no Almeidão que mil e tantos potiguares, assistindo o jogo em Natal.

Em lá chegando, a visão era aterradora – um lamaçal absurdo aguardava a quem quisesse chegar no estádio em si. Duas (ou três, a memória vai falhando) parcas entradas para as milhares de pessoas que chegavam da capital pernambucana (em sua maioria).

Lamaçal, depois fila absurda, para finalmente entrar no estádio. O Almeidão melhorou muito nos últimos anos, com o Botafogo de João Pessoa voltando a figurar no cenário nacional. Não era o caso daquela época em específico. Com a perna absolutamente podre e já cansado da espera interminável, finalmente adentro o estádio e vejo um campo que não deve em nada para nenhuma várzea do futebol nacional – no sentido pejorativo da coisa. Lembro que pensei: “É. Série D é isso mesmo”.

Dentro de campo, vitória suada contra um Alecrim que só tinha trazido 14 jogadores pra João Pessoa (com o único intuito de não perder de WO), por 3×1, com direito a presenciar a estreia do que certamente se tornou uma das estrelas mais folclóricas do Santa: Flávio Caça-Rato.

Avançamos no tempo.

Agora estamos em setembro de 2016. Estou eu num bar no Recife. O Santa Cruz havia eliminado o maior rival e – finalmente – disputava uma partida oficial em competições continentais. E numa casa histórica do futebol sul-americano, o Atanasio Girardot, onde enfrentava o Independiente de Medellin – que, dizem, era o verdadeiro time de Pablo Escobar. O tricolor, já rumando ao rebaixamento na primeira divisão do futebol brasileiro, decide poupar alguns jogadores na Sul-Americana. O erro é caro, os pernambucanos são dominados, e derrotados facilmente por dois tentos a zero. Ainda assim, não se pode desescrever (sic) a história. A Cobra finalmente fazia o seu debute.

E aí você me pergunta: Onde é que tu queres chegar com isso, meu velho? Te respondo: o que une esses dois momentos tão distintos na história do Santa Cruz…é Tiago Cardoso como camisa 1, embaixo de nossas traves. Sem dúvida nenhuma, o jogador que mais marcou uma geração – se você tem entre 22/28 anos, provavelmente vai concordar comigo – de corais. Pra mim, indubitavelmente o maior jogador da história do Santa Cruz.

“Porra, vei. E Fumanchu? Givanildo? Birigui? Cardoso nem maior goleiro da história é, mermão”. Eu entendo teu ponto de vista. De verdade. Mas o que pesa em relação a Tiago é uma máxima oriental milenar, a famosa “bom no bom é muito bom – eu quero ver é bom no ruim”. Nenhum dos craques citados acima tiveram culpa de estarem no Santa Cruz no período áureo da Cobra. Nenhum mesmo. Mas Tiago chegou quando o clube tinha três jogadores no elenco, todos pratas da casa. Esteve presente no primeiro campeonato estadual, que praticamente ressurgiu o clube. Foi fundamental no primeiro acesso, em 2011. Fica a pergunta – o 2011 do Santa (que retirou o time do atoleiro e fez a torcida voltar a acreditar) seria o mesmo sem Tiago Cardoso? A minha resposta é um sonoro NÃO.

Ele estava conosco no primeiro, segundo e terceiro títulos. Estava conosco nos acessos. Subiu conosco pra primeira divisão. E teve a honra de ser o primeiro goleiro do Santa Cruz a disputar uma competição oficial da CONMEBOL. Eu estava no Almeidão com ele. E o assisti no Atanasio Girardot. É difícil dialogar contra isso. É muito bom estar tomando um drinque na cobertura, mas quem viu o fundo do poço de perto e nos ajudou a sair do atoleiro…merece respeito. E muito.

Aí você, sempre naquele ceticismo de sempre, me responde: “Ele foi pro Náutico, carai!”. GRANDE MERDA. Primeiro – cá entre nós – ele já estava na espiral descendente quando foi pro Náutico. Teve um 2016 bastante discutível. Segundo – e pra mim o mais importante, o Santa Cruz sempre foi MUITO irregular com Tiago (e aqui eu falo, obviamente, da diretoria). Dos anos em que ele passou no José do Rêgo Maciel, quantos meses foram atrasados? Quantas situações aberrantes ele vivenciou? Não é pouco estresse, eu garanto. Mas Cardoso sempre foi profissional. Nunca fez juras de amor loucas ao Santa. Mas vestiu a camisa sempre com orgulho e raça. Só pra finalizar o ponto ali em cima, ele teve um ano tão ruim no Náutico que eu diria que valeu a pena demais, só pra dar uma boa gargalhada da desgraça alheia. Ah, só pra constar: Givanildo vestiu a camisa do time vermelho e preto da Abdias. Tará, nosso artilheiro histórico, já jogou bola no aristocrático encarnado e branco. Tiago não inventou moda – muito pelo contrário.

Ainda não falamos da capacidade mais incrível de Tiago Cardoso: a de se reinventar – pra melhor – em decisões. Quem não lembra de pelo menos cinco (sendo modesto) grandes defesas de Tiago Cardoso em finais? Quem não lembra dos jogos decididos contra o Sport única e exclusivamente pela ação milagrosa do homem? Nosso ex-goleiro tinha várias deficiências, mas elas decidiam tomar um açaí e correr no Parque da Jaqueira durante decisões. Até no seu pior fundamento – defesa de pênaltis – ele simplesmente escolheu O MELHOR JOGO POSSÍVEL para finalmente defender uma bola: contra o Ceará, na Copa do Nordeste, um momento antológico – e que nos encaminhou para a conquista do primeiro regional.

Por fim, a tese-debate-crônica evolui pra crônica-carta. Agradeço a paciência pela leitura, espero que você tenha se engajado nesse hipotético debate tanto quanto eu. Mas é hora de deixar de focar em vossa excelência – e agora, falar diretamente para o ex-goleiro coral. Quem sabe ele não lê esse texto?

Tiago, eu acredito que a análise histórica demande tempo. Talvez em dez anos, você seja reconhecido como merece. Talvez não. Mas, de qualquer forma, não só eu – como muitas e muitos corais santacruzenses tricolores do Arruda – estarão gratos pelo trabalho que você desempenhou em toda a sua história no José do Rêgo Maciel. O que você escreveu na história, borracha nenhuma apaga.

Obrigado, maior de todos!

Tricolor coral santacruzense das bandas do Arruda. O resto, eu deixo pra você opinar sobre.

2 Comments

  1. André Felix
    junho 6, 2018
    Reply

    Que lindo isso, bicho.
    Quem foi de T. Cardoso nunca estará satisfeito com Machowski. Quem sabe a gente se encontra no mata-mata com o Botafogo/SP né. Faça o favor de continuar em baixa, Thiagão.

    • Roberto Dantas
      junho 6, 2018
      Reply

      “Quem foi de T. Cardoso nunca estará satisfeito com Machowski.”

      Concordo integralmente. Que falta fez o Tiago Cardoso (das decisões) esse ano..

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