Tour de las Canchas – Montevideo Wanderers

“Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém.”

É assim que o escritor uruguaio Eduardo Galeano começa “O Estádio”, breve texto que compõe “Futebol ao Sol e à Sombra”, um clássico da literatura boleira. Vazias, as canchas gritam as suas histórias. Cheias, cantam essas glórias pela voz da torcida. O gramado e o concreto nos dizem muito sobre a construção de um bairro e de uma cidade, a criação dos ídolos, as batalhas épicas e as memórias de cada torcedor.

A Ilha do Retiro, por exemplo, localizada em bairro que leva o mesmo nome, é não só a casa do Sport Club do Recife, mas um território afetivo que conta uma parte importante da minha história – e de outros tantos torcedores apaixonados.

Hoje, vivendo há quase dois anos em Montevidéu, decidi amenizar a saudade de casa visitando as canchas uruguaias – e, quando possível, de outros países – e coletando suas histórias para contar no Sindicato da Bola. Nasce aí o Tour de Las Canchas.

Comecei o passeio no último fim de semana pelo Estádio Parque Alfredo Víctor Viera, a casa do bohemio Montevideo Wanderers Fútbol Club.

Chegando ao Parque Viera…

Inicialmente nomeado Wanderers Park, o atual Parque Viera está localizado no bairro do Prado, na região oeste de Montevidéu. A vizinhança de casarões e os 106 hectares de área verde do Parque do Prado denunciam o passado aristocrata do bairro. Ali estão, além do Parque, pontos turísticos como o Jardim Botânico, o Museu de Belas Artes Juan Manuel Blanes, o Rosedal e também a Residência Presidencial, moradia de vários líderes de estado e governo uruguaios desde 1947.

Parque do Prado. Foto: Martin Atme / Intendencia de Montevideo

O Prado também é a casa de três equipes tradicionais do futebol uruguaio, que rivalizam entre si e possuem estádios a menos de 10 quarteirões de distância um do outro: Montevideo Wanderers, River Plate e Bella Vista. Este último, apesar de disputar atualmente a terceira divisão nacional, já marcou presença na Copa Libertadores em 6 oportunidades e chegou às quartas-de-final em 1999.

Fui ao Parque Viera no último sábado acompanhar Wanderers e Cerro, partida válida pela 14ª fecha do Apertura, torneio de primeiro turno do Campeonato Uruguaio. Como estava atrasado para o jogo, o trajeto de casa até o estádio foi de Uber. No carro, resolvi aproveitar a companhia para puxar assunto sobre o único tema que interessava: futebol. A resposta do senhor ao volante foi um prenuncio da falta de sorte naquela tarde: “no soy muy futbolero”.

Sentindo-se em casa

Logo na entrada do Parque Viera, a aparência amigável – com arquibancadas de concreto em L para os locais, banheiros recentemente construídos e uma área verde entre o vestiário e as tribunas, onde pequenos torcedores batem bola – é o cartão de visita do pequeno estádio.

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Foto: Larissa Brainer / @mergulhemvd

Segundo o site oficial do Montevideo Wanderers, o estádio bohemio foi fundado em 15 de outubro de 1933 e possui capacidade para 10.000 torcedores. As quatro tribunas do Parque Viera levam os nomes de antigos ídolos do clube: René Borjas, Obdulio Varela (histórico capitão da seleção uruguaia de 50), Cayetano Saporiti e Jorge Barrios. Como o estádio não cumpre os requisitos da Conmebol – durante minha visita, estavam sendo instalados postes de iluminação – as partidas internacionais do Wanderers acontecem no Estádio Centenário ou na casa de rivais, como o Estádio Luiz Franzini, do Defensor Sporting.

Antes do apito inicial, me meti na conversa de dois amigos, que logo me receberam com a tradicional amabilidade uruguaia. Gabriel, 47 anos, e Fernando, 54, como bons torcedores, começam o papo levantando a bola da cancha e do seu time do coração. Me contam que, ao contrário do que seu tamanho ou aparência possam dizer, o Parque Viera foi o primeiro estádio uruguaio a modernizar a entrada de seus sócios e torcedores através de cartão magnético.

Orgulhoso, Gabriel me mostra a carteirinha de sócio e diz que vai ao estádio desde os anos 70. A camisa de Fernando também me chama a atenção e ele logo explica: “Foi um presente de Maxi Oliveira, jogador da Fiorentina atualmente. Os autógrafos são do elenco de 2014, que ganhou o Clausura.”. Além do Clausura de 2014, o Montevideo Wanderers foi campeão uruguaio em três oportunidades (1906, 1909, 1923* e 1931) e chegou às oitavas da Libertadores em duas ocasiões (2002 e 2015).

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Batendo um papo com Gabriel e Fernando. Foto: Larissa Brainer / @mergulhemvd

“Esse lugar é como um templo para mim. Venho ao Parque todos os finais de semana, é um evento religioso”, me conta Fernando.

Logo em seguida, sou apresentado pelos dois ao presidente do clube, Jorge Nin. Mesmo correndo para o começo da partida, nos pergunta se queremos entrar ao gramado no intervalo para tirar fotos. Imaginei a figura de Arnaldo Barros passeando e atendendo os torcedores pelas sociais da Ilha do Retiro…

Cinzas no gramado

Terminado o primeiro tempo, muitas famílias reforçavam o caráter familiar e geracional da torcida do Wanderers e faziam fila nas vendinhas de choripan, cachorro-quente, refrigerante e café que ficam ao lado das arquibancadas. Colei em uma delas para trocar uma ideia: o pai Miguel, 43, e a filha Josefina, de 7 anos.

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Foto: Larissa Brainer / @mergulhemvd

Miguel me contou que sua primeira memória de Parque Viera é das partidas que acompanhava ainda na barriga da mãe. Com Josefina, ele não quer que a história seja diferente: “Ela já vem comigo ao estádio desde que tinha 2 anos”.

“Meu pai, antes de morrer, pediu que suas cinzas fossem espalhadas no Parque Viera e nós conseguimos a autorização do clube. Eu espero fazer o mesmo porque aqui é a nossa casa.” (Miguel, 43 anos)

Los Vagabundos

Acompanhei o primeiro tempo na Tribuna René Borjas e, no segundo, fui para a Cayetano Saporiti para conhecer a banda do Montevideo Wanderers: Los Vagabundos. Troquei uma ideia com um dos membros, Pablo Pepe, de 36 anos, que me contou de onde surgiram o nome do clube e também os apelidos boêmios e vagabundos – dois motivos que me fazer simpatizar com o Wanderers.

Inicialmente, existia o Albion Fútbol Club, pioneiros no futebol uruguaio. O Wanderers surge como uma separação do Albion, um grupo de jovens jogadores liderado pelos irmãos Sardeson, em 15 de agosto de 1902. Na época, os dirigentes do Albion disseram que o novo clube iria fracassar por não ter sede e recursos. Resumindo, por serem uns wanderers, uns vagabundos”.

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Pablo alentando ao Wanderers. Foto: Larissa Brainer / @mergulhemvd

O resto é história: o apelido foi abraçado pelo clube, em seu nome, e pela torcida, nos apelidos de vagabundos e boêmios. Outra versão também conta que os irmão Sardeson foram à Inglaterra em visita e viram o Wolverhampton Wanderers campeão da FA Cup de 1983. Daí a inspiração para o nome dos Wanderers uruguaios.

No meio da nossa conversa, logo ao começo do segundo tempo, sai um gol do visitante. Wanderers 0x1 Cerro. Pablo volta à bancada e empurra o time junto aos Vagabundos, ao som de versões de Nego do Borel/Maluma e Rubén Rada.

Mala suerte na estreia

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Foto: Larissa Brainer / @mergulhemvd

O segundo tempo segue com pressão do Wanderers e algumas bolas na área, mas o placar não muda. O Tour de las Canchas estreia com derrota. Uma pena, porque logo ao final do jogo, tive a oportunidade conhecer Jorge Barrios – o Jorge Barrios que dá nome a uma das tribunas – mas o clima não era muito propício a um bate-papo. Fica pra próxima, que virá! Depois da primeira visita ao Parque Viera, a certeza que fica é de que voltarei para alentar os vagabundos e boêmios de Montevideo.

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* torneio organizado pela Federación Uruguaya de Fútbol e não pela Asociación Uruguaya de Fútbol, em período conhecido como a divisão do futebol uruguaio

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O Tour de las Canchas está no blog do Sindicato da Bola quinzenalmente, sempre às quartas-feiras. Sempre que os deuses do futebol permitirem.

Rubro-negro do Leão da Praça da Bandeira. Vivendo em Montevidéu, Uruguai.

2 Comments

  1. Danilo Barros
    maio 4, 2018
    Reply

    Breninho, parabéns pela postagem riquíssima de conteúdo e paixão pelo futebol. Observando esse tradicional clube uruguaio – 5º maior campeão do campeonato nacional -, vemos como são universais a linguagem e simbologia desse esporte.
    Gostei demais da ideia do Tour de las canchas e já tô na expectativa pelas próximas postagens! Tamo junto sempre!

    PS.: Me senti em Recife ao ler que o Parque Viera foi o primeiro estádio em linha reta da américa latina a modernizar a entrada de seus sócios. Aguante el bohemio!!

    • Breno Lacet
      maio 4, 2018
      Reply

      Que massa que curtisse, maguinho! Foi massa a experiência, visse? Também já tô na expectativa do próximo. Aguante el Bohemio!

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