Tour de Las Canchas – Eintracht Frankfurt

O Waldstadion foi inaugurado em 1925 e é casa do Eintracht Frankfurt desde então. Ele foi demolido e no mesmo local foi construída a Commerzbank Arena, inaugurada em 2005. O estádio já foi sede de duas Copas do Mundo, 1974 e 2006. Na primeira, o Brasil enfrentou Iugoslávia e a Escócia neste estádio e ambos jogos terminaram em 0 a 0. Em 2006, o Brasil foi eliminado nas quartas-de-final contra a França perdendo por 1 a 0, gol de Henry e com uma deslumbrante exibição de Zidane. Mas a Seleção tem boas lembranças do Waldstadion também, lá o Brasil levantou a taça da Copa das Confederações de 2005, batendo a Argentina por 4 a 1, fora o baile.

Waldstadion

 

Commerzbank Arena

O Eintracht Frankfurt não é um dos mais vencedores times da Alemanha, nem tem uma das maiores maiores torcidas, mas está entre os clubes mais tradicionais, sendo membro fundador da Bundesliga, em 1963. Sò levantou a Salva de Prata uma vez, em 1959, na fase pré-Bundesliga. Mas pode-se dizer que é um frequente campeão da Copa da Alemanha, 5 vezes. A primeira em 1973-74 e a mais recente na atual temporada, 2017-18. As Águias já foram campeãs da Copa da UEFA em 1979-80 em uma final alemã contra o Borussia Möchengladbach. O curioso foi que o time de Frankfurt derrotou o Bayern nas semis e o seu rival da final passou pelo também alemão Stuttgart na outra chave. Na temporada de 1959-60, o Eintracht foi vice-campeão da Copa dos Campeões, perdendo para o Real Madri de Puskás e Di Estéfano.

Além disso, o Eintracht Frankfurt tem uma história de resistência já que estava listado como um Judenklub. Clubes que segundo o regime nazista na Alemanha, tinha ligações com a comunidade judaica, além dele, estavam: o outro time da cidade de Goethe, o FSV Frankfurt, o Bayern de Munique e o austríaco FK Austria Wien. Em 2017, Peter Fischer presidente do Eintracht, disse em entrevista que eleitores da AFD (Alternativa para a Alemanha) partido de extrema direita com fortes tendências ao nazi-fascismo não são bem-vindos no clube. Ironicamente, apesar de ser o maior time da capital financeira da Europa, é comum ver uma bandeira de Che Guevara nas arquibancadas do Waldstadion.

Setor sem cadeiras

Em 2014, tive a chance de ir pro, até agora, único jogo de futebol fora do Brasil da minha vida. E foi logo no primeiro dia de um mochilão pelo velho continente. Naquela noite, em Frankfurt, todo o estereótipo do alemão frio, organizado e comportado que me foi ensinado, foi por terra.

Comprei o meu ingresso ainda no Brasil, como bom secão de bola, assim que a viagem foi confirmada, fui logo olhar a tabela dos campeonatos dos países por onde iria passar. E justamente no dia da minha chegada na Alemanha, pelo 4º mais movimentado aeroporto europeu, tinha jogo do time casa. Infelizmente foi o único jogo que deu pra ir na viagem inteira.

Nesse primeiro dia de mochilão, ainda não tinha encontrado meus dois companheiros de viagem que já estavam habituados à Europa, um deles fala alemão inclusive. Me meti a ir pro jogo sozinho e sem falar nada da língua local. Para ir ao Waldstadion, fui pegar um bonde até a estação central e de lá um trem para o estádio que fica no meio do caminho entre o aeroporto e o centro da cidade, literalmente no meio do mato.

Encontrei um sujeito bastante simpático na parada do bonde que me “adotou”, descemos na estação central para encontrar um grupo de amigos dele. Assim que descemos na estação, começou uma correria da polícia e o sujeito que me acompanhava, cujo nome não recordo, disse que era porque a torcida do Hertha Berlin, adversário daquele dia, estava chegando.

Já dentro do trem, lotado, o que se via eram garrafas e mais garrafas de cerveja vazia, muita cantoria e os torcedores batendo nas janelas como se fossem tambores. No caminho, a gente foi conversando sobre futebol, obviamente. Todos riram da minha cara quando falei que a temperatura mais baixa que eu já tinha enfrentado era de 14º C, bem diferente dos 2º C daquela noite. Imagino que por uma questão de respeito, ninguém comentou sobre o elefante na sala que era o 7 a 1, bastante recente naquele dezembro de 2014. Ainda bem.

Descemos do trem e para meu espanto o caminho da estação para o estádio parecia filme de terror, tudo escuro, árvores de ambos os lados e aquela névoa fantasmagórica. Era impossível ver o rosto de qualquer pessoa. Chegando mais próximo do estádio, tudo ficava mais claro e o caminho estava repleto de camelôs e em deles comprei um cachecol do time da casa como souvenir. Os gasoseiros não precisavam de isopor para manter a cerveja gelada, as caixas de cerveja ficavam em carrinhos de mão ao ar livre mesmo. Havia carrinhos de churrasco, cheiro de mijo, latas e garrafas pelo chão. Atmosfera nada muito diferente do que a que encontramos aqui, não é mesmo? Aquela mistura de simpatia e hostilidade que a gente gosta. Um dos alemães que estavam comigo disse que deveria beber Apfelwein que é a tradução literal de “vinho de maçã” bebida típica da região de Frankfurt, na verdade é impressionante a fixação que o pessoal de lá tem por maçãs. Posso afirmar sem medo que foi uma das piores bebidas que já experimentei. Atmosfera nada muito diferente do que a que encontramos aqui, não é mesmo?

Apfelwein com as cores e símbolos do Eintracht

Na entrada me perdi do pessoal e me vi sozinho novamente. Apresentei o ingresso que eu tinha impresso ainda em Recife. O estádio devia estar com mais ou menos 60% de sua capacidade máxima. Atrás de um dos gols, no anel inferior, não havia cadeiras e justamente ali era onde o coração do estádio pulsava. Do mesmo jeito era o pequeno setor destinado aos visitantes. Na arquibancada era tudo permitido: faixa, bandeira de mastro, instrumentos e o tão demonizado  sinalizador. Nada do “padrão europeu” que tentam nos empurrar goela a baixo aqui. Ainda tinha direito a uma goteira desagradável justamente no meu lugar, mas como ninguém respeitava lugar marcado mesmo, eu fui para outra parte. Sentei do lado de um senhor que usava um cobertor nas pernas para se proteger do frio. Tentei começar uma conversa, mas não deu muito certo. A única coisa que entendi foi que ele sentava na mesma cadeira há 27 anos. Inocentemente perguntei se podia fumar nas arquibancadas, ele riu da minha cara e deu um trago em sua cigarrilha. Quando contei que no Brasil não podia beber e fumar no estádio, ele se espantou.

Nos bares, não apenas vendia cerveja, ela vinha em um copo de mais ou menos 700 ml e você podia escolher entre três tipos: pilsen (clara), weissbier (trigo) e dunkel (escura). Provei de todas, claro. Havia também várias opções de salsicha, com ou sem pão. Às vezes, os clichês são lindos.

Dentro do campo, o Eintracht recebia o Hertha Berlin e o jogo terminou em um espetacular 4 a 4. Sendo que os visitantes abriram uma vantagem de 3 a 0 logo no primeiro tempo, Schieber marca o 3º para o Hertha. O Frankfurt diminui ainda antes do intervalo. Logo na na volta do 2º tempo, as Águias diminuíram para 3 a 2 com gol do suíço Seferovic, um dos ídolos daquela temporada. O time da capital fez mais um deixando o placar em 4 a 2. Aos 45’ e aos 46 do 2º tempo, o lendário Stephen Meier, grande ídolo do Eintracht Frankfurt que está no clube desde 2004, fez o 3º e o 4º gol empatando a peleja e o jogo acabou em um espetacular 4 a 4. De brasileiro em campo havia Lucas Piazon do lado do time mandante, entrou já no fim partida. Esse empate heróico foi comemorado como uma vitória, mas o que me chamou atenção foi que pelo menos uma parte da torcida não ficou em silêncio nem mesmo quando o jogo estava 3 a 0 para os berlinenses. A torcida do Eintracht Frankfurt é conhecida por ser uma das mais ativas da Alemanha.

Torcida do Frankfurt fazendo a arquibancada literalmente tremer.

Na volta, saiu todo mundo apressado para pegar logo o trem de volta para casa, tinha gente até cortando caminho pelo meio do bosque fantasmagórico, só dava para ver os vultos passando em velocidade. Quando chego na plataforma, há fiscais dando instruções com megafones, uns bons minutos de espera até conseguir entrar no vagão que estava superlotado e com aquecedor ligado no máximo. Fico espremido junto à porta, derretendo por debaixo das trocentas camadas de roupa. Por algum motivo, o trem demorou para sair. Não me lembro quanto tempo, mas para mim que sou claustrofóbico parecia uma eternidade. Apesar disso, posso dizer que mesmo sendo relativamente longe da cidade, ir e vir do Waldstadion foi muito tranquilo. Bem diferente do nossa Arena aqui.

A simpatia por Frankfurt, a cidade e o time, foi instantânea. Neste ano, o Eintracht foi campeão novamente depois de uma fila de 30 anos, o time que atualmente conta com o ganês Kevin Prince Boateng e teve como treinador nesta conquista, o croata, Niko Kovac que ironicamente vai para o time derrotado na final, o poderoso Bayern. A partida decisiva disputada no Estádio Olímpico de Berlim foi disputadíssima, terminou em 3 a 1. Fico aqui só imaginando o tamanho da festa em Frankfurt e Berlim com um pouquinho de inveja. Parabéns, Eintracht! Pokalsieger 2017-18 🦅🏆

Torcida do Eintracht Frankfurt na final da Copa da Alemanha e na comemoração na Praça Römerberg, um dos principais pontos turísticos da cidade.

Passando muito frio nas arquibancadas do Waldstadion, numa noite gelada de Frankfurt.

 

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