Respeitem meus rivais

Eu respeito os meus rivais. Na condição de ser torcedor do Náutico, quando falo rivais, me refiro, mais especificamente, aos conterrâneos Santa Cruz e Sport. Mas esse sentimento é em dias como hoje. As águas de março já fecharam o verão, e o Recife já está caótico com os tradicionais dias de chuvas intensas, como vem acertando, surpreendentemente, a Agência Pernambucana de Águas e Climas (APAC). Em dias precisos como hoje. Longe de imaginar que esse respeito se dá pós-clássico, ou naquela mesa de bar que tem um tricolor ou rubro-negro querendo meter a goga pra cima. Ali a rivalidade acontece. Mas, em dias como hoje, eu tenho respeito pelos meus rivais.

Eu lembro bem de Leonardo, saudoso atacante do Sport, que infernizava demais as defesas adversárias e de acompanhar os jogos do Leão pela TV, arrodeado de torcedores fervorosos da minha família – que é toda rubro-negra. Lembro daquele golaço do Santa contra o Flamengo, de cobertura no goleiro Júlio Cesar, num dia de chuva intensa. Permitam-me ao erro, salvo engano, foi Luisinho quem meteu aquela “bolaça”. Na alegria e na tristeza, eu respeito os meus adversários. Respeito porque meu pai me ensinou a ser torcedor. Ferrenho adepto da Ilha, sempre liberava aquela grana pra eu ir ver o jogo do Timba. Quase sempre me dava uma carona ao estádio. Até hoje, me estimula. E isso me ensinou a respeitar ainda mais o meu pai e os meus adversários.

Respeitar não é torcer favorável. É apenas respeitar. Seria a vontade de ter o três times na Série A, com os meus rivais perdendo em todas as rodadas, mas não caindo nunca. É irracional, eu sei. Futebol o é. Talvez seja esse o tempero. Ter um rival te estimula à competitividade. Você busca bater de frente. Você quer ser melhor do que ele. E você ganha, você perde, você aprende, e você respeita. Porque quando ele quer te botar pra baixo, você se impulsiona pra cima. E meus rivais também são meus amigos, numa mesa de bar, cada um com a camisa do seu time, bebendo da mesma grade, planejando as formas mais inusitadas de alcançar essa revolução.

No respeito aos meus rivais, compartilho do respeito aos nossos ídolos. Kuki, Magrão, Givanildo. Divergimos em pontos, opiniões, nos exaltamos, mas nos respeitamos. As histórias são respeitadas. Os centenários são respeitados…

O respeito, no entanto, parece ser apenas um romantismo de torcedor de arquibancada. Daquele que faz seu sacrifício pra ser sócio, acompanhar seu time de perto. De sentir o coração sair pela boca numa decisão por penalidades. De voltar da Arena de ônibus – que missão! E até mesmo quem se envolve ao longo da vida, pontual e profissionalmente, algumas vezes, parece respeitar mais do que os próprios dirigentes.

São dirigentes no Santa Cruz que estão no comando do clube há anos como sanguessugas, no discurso forjado de renovação, quando, na verdade, é apenas a manutenção do poder e do status quo que representa ser dirigente de um clube de massa. E também é Nelsinho Baptista saindo pela porta da frente na Ilha, após renunciar ao cargo de técnico e denunciar a previsível situação caótica do Sport. É presidente descompensado, com argumentos vazios e babacas destruindo o orgulho de torcedores, como o meu pai, que me ensinou a ser torcedor. Respeitem os meus rivais.

 

Foto: Google Street View

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