Pela terceira vez, Luisito Suárez

Es un depredador
Con instinto luchador
Y em cada partido siempre
Deja todo el corazón

Em recente enquete nas redes sociais da FIFA, o uruguaio Ghiggia foi eleito o melhor jogador de todas as Copas. Carrasco do Brasil em 1950, o jogador é considerado um herói nacional por marcar o gol que calou o Maracanã no jogo que ficou conhecido por Maracanazo. Na ocasião, a Celeste Olímpica levantou sua última taça mundial e escrevia uma das histórias mais extraordinárias do futebol.

Ghiggia comemora gol que garantiu o título uruguaio no Maracanã

Justo ou não considerar Ghiggia o melhor jogador do torneio que já teve Pelé, Maradona, Zidane, Beckenbauer, entre outros como astros, duas coisas não se pode negar: a raça uruguaia e a vocação ao protagonismo dos que vestem a tradicional camisa celeste. Em 2018, o melhor jogador do país veste o número nove e chega a sua terceira Copa do Mundo para garantir pela terceira vez os holofotes do mundo para si. Luis Alberto Suárez, ou apenas Luisito, encarna os poucos mais de 3 milhões uruguaios como ninguém e, desta vez mais maduro, chega com a grande responsabilidade de guiar seu time até os pontos mais altos da competição.

A história de Suárez com a Copa mesmo parecendo muito antiga, não é. A primeira Copa do jogador foi em 2010 na África do Sul. Naquela edição, o Uruguai iniciou a competição com um 0 a 0 contra a França com direito a expulsão de Nicolás Lodeiro e substituição de Suárez por Loco Abreu. Na segunda partida, um sonoro 3 a 0 contra os donos da casa com dois gols de Diego Forlán – que seria eleito o melhor jogador da competição – e um de Álvaro Pereira. Para confirmar a primeira colocação, Luisito faz seu primeiro gol em Copas e garantiu a vitória por 1 a 0 contra o México.

No primeiro jogo do mata-mata, contra a Coreia do Sul, 2 a 1 para o Uruguai. Dois gols de Luisito em uma partida só definida aos 35 minutos do segundo tempo para garantir a passagem para as quartas de final contra Gana.

Diante da última seleção africana restante na competição, o país sul-americano escreveu uma das páginas mais impressionantes na história da Copa. Dentro da grande trama, Luis Suárez foi, sem dúvida alguma, o maior patrogonista – mesmo que não seja definido como vilão ou herói. Enfim, 1 a 1 no tempo regulamentar, a partida seguiu para uma prorrogação eletrizante na qual todos que gostam de futebol pararam para acompanhar. Ou deveriam. No último minuto da prorrogação, numa confusão futebolística típica de Libertadores, num bate e rebate na pequena área celeste, Luis Suárez salva um gol com os pés. A bola insiste em voltar e o mesmo tira com as mãos em um claro impulso que toda população do país de Eduardo Galeano esperava. Ou apenas um ímpeto egoísta de quem não aceita perder um jogo, dependendo da visão de quem presenciou aquele momento, no qual mesmo com diversas interpretações, é inegável a paixão pela camisa.

Expulso aos 120 minutos, Luisito sai chorando do campo, mas insiste um tempo no portão que o levaria ao vestiário. De lá, ele olha, já derrotado, o provável gol ganês que viria de pênalti no último minuto da prorrogação. E de lá, impedido de defender com as mãos novamente, chorando, explode de emoção quando a bola colide com a trave e leva a partida para os pênaltis. Herói uruguaio, vilão para o último sobrevivente africano, Luisito comemora a cavadinha do seu compatriota Loco Abreu, o resultado de 4 a 2 nos pênaltis e a passagem para semifinal que não disputaria.

Sem o salvador da classificação, a Celeste, assim como o Brasil, não suportou a dupla holandesa Sneijder e Robben e caiu por 3 a 2 com um misto de decepção pela derrota mas orgulhosa pela campanha. No último jogo, a disputa pelo terceiro lugar contra a Alemanha, novamente uma derrota por 3 a 2, mas o reconhecimento dos uruguaios pela luta em campo. Assim, terminou o debute mundialista daquele que voltaria aos holofotes no Brasil.

A segunda Copa e o grupo da morte com Itália, Inglaterra e Costa Rica. Na estreia, se recuperando de uma operação no joelho, Suárez só assiste à surpreendente virada da Costa Rica por 3 a 1 e amarga junto com os companheiros a derrota. No que já seria bastante complicado em um grupo com sete, ou nove, títulos mundiais a volta de Luisito se tornou essencial para o futuro da seleção. Ante à Inglaterra, marca aos 39 minutos e assiste ao primeiro gol de Rooney em Copas empatando a partida aos 30 do segundo tempo. Sendo este um resultado desastroso por causa da derrota na estreia, Suárez recebe uma assistência do goleiro Muslera e marca pela segunda vez aos 40 minutos do segundo tempo em um dos jogos mais marcantes da primeira fase que lhe rendeu até uma música, El Pistolero, da banda Resk-T.

Italiano reclama de mordida

Com esperança de classificação, o confronto final foi contra a Itália, um roteiro dramático que os uruguaios estão acostumados. Com 0 x 0 até 81 minutos, a Celeste viu seu capitão, Godín, marcar um gol de costas, mas aos 35 do segundo tempo enxergou o italiano Chiellini reclamar de uma mordida no ombro. Naquela altura, o atacante sul-americano que já tinha duas mordidas no currículo, as atenções das câmeras e dos moralistas se voltaram ao herói errante que ultrapassou os limites da paixão por um jogo e manchou a pseudo-civilidade estéril na qual o futebol caminha – no Brasil, impulsionada pela própria Copa.

Do apito final da classificação, com a vitória por 1 a 0 contra os italianos, até as oitavas, não se falou de futebol e de gols. Apenas a mordida de Suárez interessava às mesas redondas e as dos bares – e até ao gabinete do presidente uruguaio. “Eu não vi que ele tenha mordido alguém, mas eles acertam cada pontapé e cada pancada! Não o escolhemos para ser filósofo, nem para mecânico, nem para que tenha bons modos; é um excelente jogador”, falou Mujica na época. Mesmo não sendo punido pelo intruso que veste preto entre os 22 artistas da bola, mas comprovado pelas imagens capturadas, a televisão e pressão moralista no esporte de contato foram determinantes para o seu futuro. Julgamento, multa e demasiada suspensão – nove jogos pela seleção e quatro meses banido do futebol, o uruguaio recebeu o maior cessação da Copa do Mundo. Sem a maior estrela, o Uruguai chega quase a contragosto no mata-mata para enfrentar a Colômbia, sofrer dois gols de James Rodríguez e ver o sonho do título adiado mais uma vez.

Após a Copa, Suárez voltaria ao campo apenas em outubro, já no Barcelona, onde formou o trio sul-americano MSN com Neymar e Messi. Já para a seleção, o atacante se apresentou quase dois anos depois, em 25 de Março de 2016, contra o Brasil, na Arena de Pernambuco, e empatou a partida em 2 a 2 evitando a vitória canarinha.

A Copa do Mundo, acostumada a receber os melhores futebolistas do globo desde 1930, acolhe pela terceira vez um dos maiores protagonistas da sua história. Mais maduro e multicampeão, chega na competição para qual doou sua vida nos jogos que disputou, em que teve momentos de glórias e outros de julgamentos negativos, mas em que nunca foi eliminado no campo. E os mais de 3 milhões de uruguaios continuam tendo seus pensamentos moldados pela mística da Celeste em busca da quinta estrela, pelas mãos do maior goleador da seleção na história – Luisito Suárez.

Mosaico da torcida uruguaia na despedida da seleção para a Copa 2018

Textos de apoio:

http://www.conmebol.com/pt-br/heroi-do-maracanaco-alcides-ghiggia-e-eleito-melhor-jogador-das-copas

https://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/05/deportes/1465094961_635914.html

https://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,recepcao-festiva-surpreende-selecao-do-uruguai,580691

http://globoesporte.globo.com/futebol/selecoes/uruguai/noticia/2014/06/fifa-decide-punir-suarez-por-nove-partidas-apos-mordida-em-chiellini.html

http://www.espn.com.br/noticia/421193_fifa-anuncia-punicao-de-9-jogos-banimento-de-4-meses-e-suarez-esta-fora-da-copa-do-mundo

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