Paixão pra uns, patrão pra outros

10.996.999/0001-24. Uma sequência de que pode parecer aleatória, mas é importantíssima para a compreensão desse texto: este é o CNPJ do Santa Cruz Futebol Clube.

Por um prisma, o Santa Cruz é uma entidade para muito além do futebol. É um fenômeno de união de várias classes, credos, cores e gêneros. É uma paixão. Falando de forma pessoal, sem dúvida nenhuma, é algo que acompanha o meu dia a dia desde a mais tenra infância.

Por outro prisma, porém, o Santa Cruz é uma pessoa jurídica. Com deveres trabalhistas. Com obrigações tributárias. Com pessoas que precisam do clube para sobreviver. Com alguns grandes salários e muitos salários modestos. Do roupeiro ao jogador mais caro do elenco.

Sempre me incomodou bastante a miopia ideológica que acomete várias pessoas no que cerne ao seu time de futebol. Ora, remeto ao título: paixão pra uns, patrão pra outros. E o Santa Cruz, historicamente, é um patrão cruel. Especialmente com aqueles que mais dependem dele.

Quantas e quantas temporadas não ouvimos do sacrifício para quitar os salários dos jogadores, ao revés dos próprios funcionários da casa, já historicamente negligenciados? E qual o salário deles? Quantos deles já passaram por situações vexatórias na vida por não terem sido atendidas às mínimas condições trabalhistas?

Para além disso, há a questão dos jogadores. Me deixou assustado a declaração de um ex-presidente, ao falar de um ex-centroavante. Afirmava que ele não tinha que estar reclamando, pois só devia um mês de salário a ele – para o resto do elenco, a dívida já caminhava pro terceiro mês.

Isso não existe. Pergunto: O jogador que já caminhava pra mais de 30 dias sem receber teria que ou ficar calado, ou ser conivente, porque os seus colegas não recebem há 90 dias? Tá errado em dever um mês e tá muito mais errado em dever três. Ponto.

Bastaria trocar, em uma notícia de jornal, o nome Santa Cruz por patrão e o nome do centroavante por trabalhador e você veria uma enxurrada de justas críticas a bizarrice dita acima.

Ninguém obrigou o Santa Cruz a oferecer um contrato. Mas a lei trabalhista obriga a ele cumprir com o que estipulou. E ponto. Não entremos aqui na seara dos salários muito acima da realidade brasileira. Até porque não são eles que sofrem mais. Quem sente na pele o atraso é o menino da base que, no Santa, ganha um salário modesto mesmo para os padrões normais das trabalhadoras e dos trabalhadores desse país. Quem sente na pele é a turma responsável pela empresa. Os roupeiros. Gente que tem décadas de casa, muitas vezes. E que não deveria estar acostumado com esse tipo de situação.

Para além disso, o trabalhador tem o direito de almejar algo melhor para si na carreira. Já me estressei demais com isso, mas dada a instabilidade da carreira, hoje compreendo. Pergunto a você: tu deixaria de sair pra uma empresa concorrente para ganhar três vezes mais? Porque o time pode ser seu, mas pra ele é mais uma assinatura na Carteira de Trabalho (excluindo os casos cada vez mais especiais no futebol).

Sou tricolor santacruzense das bandas do Arruda. Pra mim, não há time maior no mundo. Mas isso não me faz deixar de observar que depois do Santa Cruz Futebol Clube, vem um CNPJ. E desse CNPJ, vem um histórico de desrespeito às leis trabalhistas e ao consenso quase que mundial do ciclo de 30 dias para receber.

E se o Santa fosse o teu patrão?

PS – O texto não está ligado à saída de Junior Rocha do comando técnico do Santa.

PS 2 – Em que pese o esforço da nova diretoria em quitar salários, a lógica é cruel: no Santa, quando se sofre pra pagar jogador, funcionário da casa só recebe com a graça divina.

Tricolor coral santacruzense das bandas do Arruda. O resto, eu deixo pra você opinar sobre.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *