Mas nunca impedirão a primavera

Passava das 2h, portanto eu já podia chamar de segunda-feira. Eu tinha ido dormir por volta das 22h, forçosamente por uma crise de enxaqueca, mas a minha cabeça não parava de pensar. Na cama, no que podemos chamar de frio de um Recife chuvoso, eu só conseguia conjecturar no quanto as minhas escolhas me colocavam em um caminho, cuja trajetória eu me orgulhava bastante. Para contextualizar, o Náutico acabara de ser campeão pernambucano de 2018, num jogo que começou 16h do domingo. 2×1 em cima do Central, treze longos anos depois de um hiato enorme. Mais de 42 mil espectadores numa Arena Pernambuco acostumada com o vazio. Esse título era meu. Meu porque eu já estou adulto. Meu porque comprei essa briga. E me acometeu de uma alegria incomensurável, que se misturou com as lágrimas que derrubara na noite do sábado que antecedeu meu dia de redenção.

Já curado da crise de dor de cabeça, depois de celebrar demais já na Arena, uma visita rápida na sede dos Aflitos. Tomei um remédio e dormi algumas horas. Mas já naquele momento entre o sono do inebriado e o que me descansaria pra realidade, eu não conseguia dissociar minha alegria de ter sido campeão com a prisão de Lula. No sábado, dormi até 13h. Me excedi na sexta, paciência. Por isso não pude ver o discurso do ex-presidente, por quem percebi que nutro um sentimento de respeito enorme, ao vivo, na missa em homenagem a sua falecida esposa, a ex-primeira dama, Marisa Letícia. Depois de cumprir meus protocolos de final de semana, sendo dono de casa e pai de cachorro, preparei um bom momento familiar com a minha companheira para que pudéssemos admirar o já tão comentado discurso.

Por diversos momentos chorei copiosamente. Não sei se por enxergar a trajetória e tudo o que aconteceu com a minha vida ao longo dos anos da sua presidência. Pela sua facilidade de articulação de palavras, do discurso, por ser um político com capacidade argumentativa fora de série. Mas não era apenas isso. Havia algo em mim, que eu confesso que não sabia. Havia um respeito por um homem que, por motivos desconhecidos, consegue me tocar de uma forma singular. Que consegue alimentar em mim uma coragem, um desejo de mudar, mas não apenas a minha vida. Algo que alimenta a alma, que me dá sentido. Que me faz olhar para os lados e perceber quem são os meus amigos, meus pares, quais foram os caminhos que eu escolhi percorrer, o que eu tenho como prioridade na vida. E é impossível dissociar tudo o que representa as minhas escolhas, daquilo que culminou naquilo que eu sou.

A sensação de impotência, de falha, ao acompanhar pela televisão a apresentação de Lula à Polícia Federal, foi enorme. Não estavam prendendo apenas um homem. Estavam enclausurando as suas ideias. Mas falharam. Mais que isso. Resgataram. Resgataram em mim algo que estava, por vezes, sóbrio demais. Sereno demais. Ao ouvir as palavras de Lula naquele dito discurso, as lágrimas não eram por tristeza. E até poderiam ser. Mas eram muito mais por entender que eu deveria fazer algo. Que a luta dele, é a minha. E de tantos. E que isso faz o sentido.

Durante o dia havia publicado uma frase de Che Guevara nas minhas redes sociais. “Podem destruir uma, duas ou três flores, mas nunca poderão impedir a primavera”. Acaso. Fazia referência ao momento vivido por Luiz Inácio. Uma frase que inspira. E, enquanto assistia o histórico discurso pela internet, o acaso deu o tom. Lula também o citou. As lágrimas que descerem por frases ditas outrora, se reforçaram pela coincidência. Coincidência para alguns. Prefiro chamar de ideologia.

E depois de ter sido campeão com o Náutico, já para além das 2h da manhã, eu não conseguia dissociar a vitória do Náutico da prisão de Lula. Eu pensei que essas foram escolhas da minha vida. Que me colocaram em conexão com os meus amigos, com pessoas que passaram e se foram, com pessoas que chegaram e ficaram, com histórias, experiências, sorrisos e lágrimas que fizeram de mim o que eu sou. E que se não fossem pelas escolhas, essas escolhas, nada em mim faria sentido.

A história de Lula não para por aqui. O Náutico também não. Argumentamos que um gigante se revela nas dificuldades, e o Náutico foi assim. E Lula, não tenho dúvidas, é um gigante. A vida é feita de escolhas. E as bandeiras que escolhi levantar, não se podem calar.

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