Homofobia, organizadas e ditadura: entrevista com Luiza dos Anjos

A homofobia no futebol brasileiro é como aquela poeira jogada debaixo do tapete que de tão volumosa escapa pelas beiradas e incomoda levemente os pés das visitas, ou até mesmo as balas daquele revolver 38 que sempre estiveram escondidas em cima do guarda-roupa esperando só o momento de atravessar o corpo de alguém que supostamente merece. Pode ser uma manchete de jornal para ganhar cliques, um comentário em uma mesa redonda, o grito de BICHA vindo de pessoas que estariam ali no estádio teoricamente para torcer. Existem diversas formas do futebol agir a favor da cultura da homofobia. 

Contudo, como toda ação existe uma reação, existem profissionais que não estão passando o pano. Um deles é a pesquisadora mineira Luiza Aguiar dos Anjos, que desenvolveu pesquisa sobre a Coligay, considerada a primeira torcida organizada gay do Brasil. Conversamos com ela sobre o grupo de homens frequentadores da Boate Coliseu, no Rio Grande do Sul, que afrontou os ritos machistas do futebol na década de 1970, em plena ditadura militar.

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Torcedora do Atlético MG, a especialista pesquisa a homofobia no futebol. Foto: Acervo

SCTO – Luiza, primeiramente gostaria que você se apresentasse aos leitores do Sindicato da Bola. De onde você é e onde você mora hoje?

Luiza Aguiar dos Anjos – Eu sou de Belo Horizonte (MG), morei lá quase a minha vida toda, fui pra Porto Alegre (RS) no momento de fazer o doutorado pra pesquisar a Coligay e nesse momento eu tô morando em Vassouras, interior do Rio (de Janeiro). Sou professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro, do campus Engenheiro Paulo de Frontin. Minha formação de base é Educação Física, fiz o mestrado em Estudos do Lazer, mestrado interdisciplinar da Escola de Educação Física da UFMG e aí o doutorado eu fiz em Ciências do Movimento Humano, que também é sediado pela Escola de Educação Física da UFRGS.

Qual foi a sua motivação para desenvolver uma pesquisa de doutorado focada na torcida organizada Coligay?

Desde o final da graduação faço parte do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas, lá da UFMG. Então, pesquisar o futebol fez parte da minha trajetória acadêmica. E desde que entrei tinha o interesse de estudar gênero e sexualidades, então comecei um pouco pelo futebol de mulheres, depois transitei pelos temas de homofobia em torcidas. Durante o mestrado eu saí um pouco da temática do futebol, mas ainda pesquisando o torcer. Daí nas leituras que fiz nesse período já tinha me deparado com a existência da Coligay, não tinha visto nada mais aprofundado, mas citações pontuais de que ela havia existido. E aí me chamou muita atenção, uma torcida gay na década de 1970, o que chama atenção a quase todo mundo que ouve falar pela primeira vez. E por não haver nada mais desenvolvido sobre a torcida, me pareceu o tema ideal.

Naquele momento eu tinha acabado de concluir uma dissertação sobre homofobia e queria voltar para o futebol. Eu também já queria sair de BH e ir justamente pra Porto Alegre em função da Profa. Silvana Goellner, que foi minha orientadora lá e que é uma referência importante dos estudos de gênero na Educação Física. Achei uma torcida gay exatamente na cidade que queria fazer o doutorado. Coincidentemente quando eu comecei a escrever o projeto, fiquei sabendo que seria lançado um livro sobre a Coligay, escrito pelo jornalista Leo Gerchman, e aí eu tive mais elementos pra poder de onde partir. Foi uma feliz coincidência.

Pensando no território escolhido para o desenvolvimento dos seus estudos, de alguma forma a pesquisa buscou abordar a relação do regionalismo gaúcho com a homossexualidade? E se sim, o que foi encontrado?

No momento da escrita esse era um recorte que considerava importante: o regionalismo gaúcho e como ele dialoga com a ideia de masculinidade. Em alguma medida minha hipótese era que seria ainda mais improvável o surgimento de uma torcida gay no Rio Grande do Sul em relação a outros lugares do Brasil. Que a forma com que eles se relacionam com essa masculinidade faria com que fossem mais homofóbicos. Essa era uma hipótese inicial. Não apenas mais homofóbicos, mas por sofrerem de uma certa homofobia regional, pelo seu estado, os incomodaria mais. E ao longo do desenvolvimento da pesquisa não se mostrou verdadeiro. Não necessariamente porque identifiquei que o estado é muito libertário, progressista ou algo nesse sentido, mas eu não consegui confirmar a hipótese que lá era mais difícil. Me parece que era mais em função do cenário futebolístico que eles viveram naquele momento do que propriamente por uma diferença regional.

De fato, em diversos momentos a afirmação da masculinidade se comprova, o que não existe é uma ampliação da resistência da presença da Coligay como resultado disso. No momento de surgimento da Coligay as torcidas do Grêmio ainda eram muito emergentes. Existiam duas torcidas menores, o futebol ainda não era tão viril como ele veio a se tornar nas décadas de 1980 e 1990, nas torcidas especificamente, não necessariamente na modalidade. Isso propiciou uma aceitação, ou minimamente uma tolerância. Mas a afirmação da masculinidade foi importante, tanto é que o fato da Coligay brigar e ter sido bem sucedida nessas brigas, isso é valorizado entre os entrevistados que conheceram a torcida. Mas a questão da resistência a ela isso não se manifestou.

1A história da Coligay, torcida que desafiou o machismo no futebol (1)
A Coligay surgiu dentro de uma boate gay. Foto: Acervo Revista Placar

Qual era o perfil dos torcedores da Coligay? Em geral qual era a orientação sexual da torcida?

Me parece evidente que eram oriundos da classe média, tanto pelo perfil das pessoas que eu entrevistei, do relato que elas têm de si e dos outros, quanto pelo fato deles partirem de uma boate, né? Eles eram frequentadores de uma boate. Então, havia cobrança de ingresso, as bebidas lá dentro tinha um valor mais alto, então não era possível que uma população de classe mais baixa frequentasse a boate, consequentemente, não fazia parte daquele núcleo que se mobilizava para torcer. Obviamente, uma vez dentro do estádio, outras pessoas poderiam ingressar, mas o núcleo duro da Coligay era composto fundamentalmente por pessoas da classe média, brancos, trabalhadores, muitos cabeleireiros, mas a maioria com empregos formais, estáveis e de uma faixa etária de 25 a 35 anos.

A maioria deles se identificam como gays, não há uma variação enorme quanto a isso, mas havia uma presença de travestis dentro da torcida também e há algumas pessoas também heterossexuais que frequentavam eventualmente. Tanto alguns integrantes da banda, por exemplo, que são integrantes da torcida, mas com um papel bastante específico, quanto algumas pessoas que transitavam. Tinha uma torcedora mulher chamada Dora que aparece em uma série de registros de jornal, alguns torcedores citam a presença dela e que se identificava como uma mulher heterossexual que gostava muito do ambiente de festa proporcionado pela Coligay. Então, em que pese a identificação bastante reafirmada como uma torcida gay, o próprio nome “Coligay”, havia também uma certa pluralidade ali dentro, havia uma hegemonia, uma maior parte de torcedores identificados como homens gays, mas havia sim uma diversidade para além desse núcleo central.

“O Grêmio não solicitou a saída da Coligay e não houve nenhuma organização formal das outras torcidas pra que não ingressassem no estádio”.

Quais tipos de resistência a torcida enfrentou por reunir membros majoritariamente homossexuais?

No início parece que eles previam mais dificuldades do que encontraram. Antes mesmo de ingressarem aos estádios, o Wolmar Santos (vídeo abaixo), fundador da Coligay, solicitou a presença de alguns seguranças da boate Coliseu que era de propriedade dele pra poder acompanhá-los. Ele ofereceu aulas de karatê para alguns dos integrantes para que pudessem se defender. Então tinha um aparato para se proteger desde o primeiro dia que foram ao estádio. No primeiro jogo é relatado que houve lançamento de laranja neles e algumas brigas aconteceram. Em um primeiro momento me pareceu ter havido uma resistência maior, teve uma série de relatos de torcedores que disseram que não compactuavam com a presença da Coligay ali, mas também não pareceu se mobilizarem pra saída deles. Comentavam que não gostavam, achavam que aquilo não fazia parte do ambiente do futebol. O Grêmio não solicitou a saída da Coligay e não houve nenhuma organização formal das outras torcidas pra que não ingressassem no estádio. Então, todas as resistências foram mais individuais, uma coisa de um incômodo do que propriamente um enfrentamento à possibilidade deles de permanência e manifestação dentro dos estádios.

Os torcedores da Coligay se travestiam para ir aos estádios?

Não exatamente. As travestis da Coligay estavam como travestis, com vestes que as identificavam como tal, mas de uma maneira menos acintosa do que desejariam ou do que esperariam. Eles usavam kaftas, túnicas, tinham uma série de adereços com plumas, purpurinas, então assim havia uma estética que dialogava com a ideia da homossexualidade, mas era uma estética muito mais carnavalesca do que feminina. Ainda que uma carnavalização que tinha um quê de travestido, não era qualquer fantasia de carnaval, dialogava com a estética homossexual. Mas não era propriamente se vestir de mulher.

A história da Coligay, torcida que desafiou o machismo no futebol
Mesmo na ditadura, a Coligay foi relativamente aceita por clube e torcedores. Foto: Facebook/Tribuna 77

A torcida foi contemporânea de um período obscuro da história do Brasil: a ditadura militar.  Você considera que a Coligay era uma torcida de cunho político?

Acho que a presença deles no estádio, o modo como se manifestavam, a afirmação de serem uma torcida composta por homossexuais, isso em si já é político, né? Se eles fossem conscientes disso ou não. Sobre a consciência e como eles articulavam esse exercício político de ser um grupo de gays e travestis no estádio, isso parece variar um pouco entre os torcedores. Eu encontrei falas de torcedores no jornal Lampião da Esquina defendendo que a Coligay se constituia enquanto um movimento de militância homossexual. Por outro lado, o Volmar entende que não. Então isso mostra uma divergência do modo de pensar a situação. Ainda que a manifestação deles e a própria existência enquanto homossexuais assumidos vão de encontro ao que a ditadura militar defendia, que é um comportamento moralizado que não compactuava com a homossexualidade, muitos dos torcedores se mostravam conservadores.

Tive inclusive entrevistados que entendiam que a ditadura foi boa e que o seu retorno seria bem vindo. Então assim, se alguns deles entendem que aquilo é um movimento político, não encontrei nenhuma fala que critica a ditadura militar propriamente dita. Eles podem criticar o conservadorismo moral heteronormativo, mas a ditadura isso não aconteceu. Eles não dialogam com uma militância política tradicional.

“Parece que houve de lá pra cá um processo de virilização das torcidas e da formação de um perfil mais belicoso (…) O ambiente dos estádios se tornou menos permissivo”

Se compararmos os anos 60/70 com os dias de hoje, podemos dizer que o futebol está menos tolerante às manifestações homossexuais do que no período da ditadura militar, quando a Coligay existiu?

Olhando para o futebol, parece que houve de lá pra cá um processo de virilização das torcidas e da formação de um perfil mais belicoso. Naquele momento (década de 1970) o que existia de briga nas torcidas era soco, uma laranja, jogar copo de mijo, o tipo de confronto não colocava em risco a vida. Isso falando de Porto Alegre. Nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo já estava em curso esse processo de mudança no ambiente das torcidas. Com o passar do tempo, com a formação, desenvolvimento e amadurecimento das torcidas organizadas jovem, principalmente na década de 1980, acho que se tornou mais difícil essa presença da Coligay. O ambiente dos estádios se tornou menos permissivo. Não tenho dúvidas que a década de 1990 era menos permissiva do que a década de 1970. Mesmo em um ambiente de ditadura militar, porque em alguma medida, a torcida me parece ser vista quase como um espetáculo de teatro, sabe? Vistos como engraçados, festivos, como se não tivessem fazendo aquilo no cotidiano, estava muito demarcado que era no ambiente do estádio.

Então, o fato da Coligay ser aceita não significa que a vida de um homossexual era melhor. Se a gente tirar o espectro do futebol e pensar como era a vida daqueles integrantes, já não saberia te dizer se a sociedade era mais permissiva ou não, porque naquele momento ainda havia uma sociabilidade gay bastante guetificada, então eles não andavam de mãos dadas na rua, não saíam beijando na rua, a vivência da sexualidade deles estava demarcada em uma determinada região da cidade, dentro de certas boates, bares. Comparando hoje com a década de 1970 a aceitação à homossexualidade vista em sua média, pensando nas grandes cidades, ela é normal. Você vê casais de homossexuais com alguma naturalidade, as pessoas frequentam ambientes para além dos ambientes demarcados, você vê casais de lésbicas, gays em um restaurante.

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Guerra do Pacaembu (1995): Final da Supercopa São Paulo de Juniores

Por outro lado, essa ampliação da sociabilidade fora dos guetos gera essa reação conservadora que a gente tá vendo atualmente. Então, ao mesmo tempo que a gente vê esse movimento de ganho de liberdade, de direitos, de uma série de políticas públicas voltadas para essa população, tudo isso gera uma reação conservadora, que na época da Coligay não era “necessária”. O cara que não quisesse ver o homossexual, ele poderia tranquilamente não ver. O espaço onde as pessoas seriam confrontadas com um casal de homens era muito raro, era basicamente isso, era numa peça (de teatro), era num programa do Clodovil sendo tratado de uma forma bastante específica. Enfim, a saída do gueto motiva essa reação conservadora. Por isso que não dá exatamente para comparar, porque na década de 1970 os integrantes da Coligay não eram agredidos na rua, eles não entendiam que as suas liberdades estavam cerceadas, mas as suas vivências, expressões mais claras da orientação sexual deles estavam restritas aos guetos.

“O futebol tem uma grande capacidade de levantar questões, ele é super popular e mexe com a identidade das pessoas”

Você enxerga que de alguma forma o futebol pode oferecer soluções para atenuar o problema do preconceito com os homossexuais em nosso cotidiano?

Acho que ele não é necessariamente a solução, mas também não está fora do cenário de soluções e de problemas. Ele tá ali como parte da sociedade, ele não pode se isentar. Os torcedores não são alheios a tudo que está acontecendo, então acho que trazer para o ambiente da arquibancada questões que nos tocam é totalmente legítimo. Não acho que seja necessariamente a função da torcida, não cabe também tentar instrumentalizá-la. A ideia que vou pro futebol para esquecer todas as coisas, ainda que faça sentido para umas pessoas, não fazem para outras. Ali é um ambiente também de externalizar o sentimento de militância. Pensando no caso dos homossexuais, acredito que é o papel sim do futebol de garantir que eles tenham condição de vivenciar o ambiente do futebol.

Para mim, é papel do clube garantir que torcedores gays sejam bem vindos nos seus jogos, garantir acolhimento para o jogador que quer se assumir, garantir que o seu ambiente não é um ambiente intolerante em relação a isso. É função da CBF garantir isso também. Quando tem manifestações homofóbicas da torcida é função do árbitro registrar, do STJD punir, mas punir direito, não com R$ 5 mil que pra mim não é punição nenhuma. O futebol tem uma grande capacidade de levantar questões, ele é super popular e mexe com a identidade das pessoas.

Rodrigo Édipo Escrito por:

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