Fechado por motivo de futebol

Quando o Mundial começou, pendurei na porta da minha casa um cartaz que dizia: Fechado por motivo de futebol. Quando retirei, um mês depois, eu já havia jogado 64 jogos, de cerveja na mão, sem me mover da minha poltrona preferida.”

Craque das letras, Eduardo Galeano presenteia o Brasil em ano de Copa do Mundo. A primeira edição do livro Fechado por motivo de futebol em língua portuguesa chegou ao País este ano através da L&PM editores com tradução de Eric Nepomuceno no valor médio de R$ 39,90 nas principais livrarias e sites especializados.

A obra do uruguaio tem 87 crônicas que abordam desde as vidas de gênios do campo como Maradona, Pelé e Obdulio, até lutadores da vida, como Che Guevara, através de relatos que buscam mostrar que futebol, política e história sempre estiveram interligados não apenas na Pátria Grande do escritor, como também em todo o mundo.

Ao longo das 228 páginas, na parte “Futebol – a única religião sem ateus”, estão presentes uma entrevista concedida ao El Gráfico em 1995, logo após a publicação do Futebol ao sol e à sombra, o texto “O futebol e os intelectuais de esquerda”, produzido em 1968, o discurso do autor ao receber o VII Prêmio Manuel Vázquez Montalbán, em 2010, e as palavras lidas na abertura do Congresso de Esportes Play the Game, em 1997. A antologia, portanto, reúne textos de diversos livros de Eduardo Galeano, como o Dias e noite de amor e de guerra, Memória de fogo, Futebol ao sol e à sombra, Espelhos, além de outros presentes em jornais como o Brecha e Página/12. Por isso, alguns textos já são comuns para quem costuma ler o escritor. Pela cronologia, porém, a leitura do livro pode se tornar uma experiência diferente.

No decorrer da obra, é perceptível um Galeano muito mais ligado ao seu país natal, o Uruguai, lugar de destaque na obra, que traz especial análise sobre a sociedade rio-platense e o futebol que outrora conquistou o mundo, mas há algum tempo vive às sombras de antigas glórias. O uruguaio também ratifica sua admiração pelo futebol livre da responsabilidade de vencer e compromissado só com a beleza, questionando fortemente a lógica mercantilista que domina o esporte e escraviza seus operários, os jogadores. Aquele que enriquece os amos do futebol, engravatados da FIFA que, via de regra, nunca deram um chute em uma bola.

Entre pensamentos e questionamentos do show business e a dominação das empresas sobre seleções e clubes, Eduardo Galeano também mostra o seu estilo clássico de escrever: apaixonado, que mistura realidade e, talvez, um pouco de imaginação. O estilo de quem sempre buscou enxergar o mundo por um lado mais romântico e humano. Com diversas passagens por histórias, um personagem inspirou este lado poético de ver o futebol: Edson Arates do Nascimento. Entre diversos textos, destaca-se o Pelé/1, que o próprio escritor lê no vídeo abaixo:

Outro personagem presente em todo o livro é o irmão sul-americano de Pelé, com quem este divide espaço no panteão do futebol: Diego Armando Maradona. O mais humano dos Deuses, segundo Galeano, teve uma vida única com as chuteiras no campo, e tem outra tão extraordinária quanto, cheia de altos, baixos, coerências e incoerências fora do esporte. Uma figura de destaque, ainda, por ser o primeiro jogador a denunciar os amos do negócio do futebol. Com uma tatuagem de Gue Guevara no braço e uma de Fidel Castro na perna, Maradona também carrega na sua pele uma de Carlos Menem – uma incoerência humana, mas que demonstra seu anseio e esforço em ter sempre voz nos diversos temas do mundo. No seu campo de batalha, onde foi um mestre, garantiu a revanche argentina diante da Inglaterra após a Guerra das Malvinas, com dois gols que mostram a personalidade do camisa 10 da albiceleste. Um passando por por todo o time inglês, considerado o gol do século XX, e o outro de mão, na trapaça, mas tão comemorado quanto pelos seus devotos.

Por fim, ou melhor, no início do livro, o uruguaio apresenta o motivo de escrever. Primeiro, pela incapacidade de ser um bom jogador de futebol no mundo real como era em seus sonhos enquanto dormia. Segundo, para: “aprender a voar na escuridão, como os morcegos, nestes tempos sombrios”. Para “descobrir as mulheres e os homens animados pela vontade de justiça”, “E em definitivo, resumindo, diria que escrevo tentando que sejamos mais fortes que o medo do erro ou do castigo, na hora de escolher no eterno combate entre os indignos e os indignados”.

Este é mais um livro de Eduardo Galeano, que deixou a terra em Abril de 2015, mas continua presente em todas as peladas de bairros e esquinas da América Latina. Pois tudo que somos é história.

2 Comments

  1. Ju
    maio 9, 2018
    Reply

    Ficou massa! 🙂 Quero ler

  2. […] insiste em voltar e o mesmo tira com as mãos em um claro impulso que toda população do país de Eduardo Galeano esperava. Ou apenas um ímpeto egoísta de quem não aceita perder um jogo, dependendo da visão de […]

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