De onde você veio?

A cada Mundial, percebe-se o aumento do espectro de cores de pele nas seleções europeias e isso vem se tornando um assunto constante na mídia esportiva, nas redes sociais e na mesa do bar. Muitas vezes, um sabichão tenta deslegitimar o sucesso de uma seleção X ou Y pelo alto números de “estrangeiros”.

Mas isso não é novidade, devido ao neo-colonialismo que só foi se encerrar na segunda metade do século XX, é possível observar jogadores não-brancos defendendo diversas seleções europeias ao longo das décadas. Portugal, Holanda, França e Inglaterra provavelmente são as seleções que mais tiveram jogadores negros em sua história.

Portugal, 1966
França, 1982
Inglaterra, 1982
Holanda, 1990

Com o aumento do fluxo migratório rumo à Europa e também à maior integração das comunidades de imigrantes à sociedades desses países, houve um crescimento do número de jogadores não-brancos nas seleções europeias. Isso ocorre em praticamente todas as seleções da Europa Ocidental: Alemanha, Itália, Espanha, Bélgica, Suíça, Suécia, Dinamarca, País de Gales, Escócia são alguns exemplos.

Eu estava assistindo ao amistoso pré-copa entre Brasil e Áustria com mais dois amigos e em determinado momento, um deles perguntou “Alaba é de onde?” e eu prontamente respondi “Áustria”, ele retrucou “não pô, ele é de onde?” e daí nós três começamos uma interminável discussão se esse tipo de pergunta é xenófoba ou não.

Alaba defendendo a seleção austríaca

Sinto que nós brasileiros, mesmo os de alas mais progressistas, ainda não amadurecemos o debate sobre imigração. Mesmo porque essa, ainda, não é um pauta presente no nosso debate político interno. E muita vezes, mesmo ao tentar defender políticas de imigração mais receptivas, caímos em argumentos comuns aos  daqueles que defendem a construção de muros.

Nas redes sociais, circula uma charge que mostra um barco de refugiados levando a Taça do Mundo para a França. Entendo a boa intenção. Mas ignora-se o fato de que aqueles jogadores franceses não são refugiados. 21 dos 23 jogadores convocados por Didier Deschamps nasceram em solo francês, possuem cidadania francesa desde o seu nascimento, foram criados naqueles país, tem o francês como língua mãe e cantam a Marselhesa a plenos pulmões antes das partidas. É um contexto completamente diferente. 

Ainda surgiu uma musiquinha da torcida brasileira provocando várias seleções rivais e a provocação em relação à França é que Zidane não teria nascido em território francês. O que mostra além da xenofobia, a falta de conhecimento, porque ele nasceu em Marselha, filho de pais argelinos. Aliás, não dá pra distinguir  xenofobia de falta de conhecimento.

Devido à grande evasão de “pé de obra” brasileiro para outras seleções, nesta Copa, cinco jogadores nascidos no Brasil defenderam outras seleções, os brasileiros tendem a tentar minimizar feitos de seleções que possuem jogadores de dupla nacionalidade ou até de jogadores filhos de imigrantes.

A grande imprensa também não ajuda muito. Sempre escutamos “Podolski e Klose, poloneses que jogam pela Alemanha”, “El Sharawi, o egípcio que joga pela Itália” e daí por diante. Como se a binacionalidade ou até mesmo a ascendência binacional desse menos legitimidade a aquele jogador defender uma ou outra seleção.

Junto a isso, pode-se observar que não há tanta comoção em relação a jogadores brancos com dupla nacionalidade. Usando as seleções finalistas como exemplo, não se discute a legitimidade de Lucas Hernadéz defender a França mesmo tendo nacionalidade espanhola também. Inclusive, nas narrações o sobrenome Hernandéz vira “Hernandê”. Griezmann tem mãe portuguesa e pai alemão, isso nunca vem à tona. Ninguém diz que Rakitic é menos croata por ter nascido e vivido toda sua vida na Suíça. O fator local de nascimento parece só ter importância quando a cor da pele do jogador não é branca.

Chamar a seleção campeã de 2018 de “time de imigrantes” ou de multinacional, além de mentira, só reforça um discurso segregacionista. Quando ganha, a diversidade étnica ajudou, quando perde, aqueles jogadores não são franceses de verdade. Mais de 90% da seleção é nascida em solo francês. Mesmo que eles não fossem naturais da França, essa foi a seleção que decidiram defender, eles são franceses. Ganham como franceses e perdem como franceses.

Site britânico exaltando as diversas origens dos jogadores franceses via twitter

 

Lateral esquerdo Benjamin Mendy fazendo a devida correção

 

Lukaku da ótima geração belga, terceiro lugar da Copa de 2018, divulgou um texto que destaca essa contradição:

“Quando eu tinha 11 anos, eu jogava pela base do Lièrse, e um dos pais do outro time literalmente tentou me impedir de entrar no gramado. Ele disse: ‘Quantos anos tem essa criança? Onde está o documento dela? Da onde ela veio?’

Eu pensei: ‘Da onde eu vim? O quê? Eu nasci na Antuérpia. Eu vim da Bélgica’.

[…]

Quando as coisas corriam bem, eu lia os artigos de jornal e eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga.

Quando as coisas não corriam bem, eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga descendente de congoleses.

[…]

Se você não gosta do jeito como jogo, tudo bem. Mas eu nasci aqui. Eu cresci na Antuérpia, em Liège e em Bruxelas. Eu sonhava em jogar pelo Anderlecht. Eu sonhava em ser Vincent Kompany. Eu começava uma frase em francês e terminava em holandês, e colocava um pouco de espanhol e português ou lingala, dependendo do bairro em que eu estivesse.

Eu sou belga.

Somos todos belgas. É isso que faz este país legal, certo?”

(Gazeta do Povo)

Lukaku em jogo pela Bélgica

Zapeando por entre os canais esportivos, vi um comentarista argumentando que o sucesso recente da França, Bélgica e outras seleções se dá pela variedade étnica de suas seleções, algo que era apenas visto na seleção brasileira até determinado momento.

Esse tipo discurso cai num racismo que é muito comum no futebol, o de que jogadores negros são físicos e habilidosos. Pode parecer uma forma de elogio, mas ao mesmo tempo deixa implícito que esses mesmos jogadores não se apegam a preceitos táticos e não possuem equilíbrio emocional que o futebol exige. Sempre que se fala de um time africano se refere à velocidade, mas junto vem o “é um time inocente”. A participação de Senegal nesta Copa, apesar de curta, derruba por terra esse tipo de visão.

No imaginário do futebol, o jogador branco é estrategista, o jogador negro tem força física. Pode-se confiar no jogador branco, mas o jogador negro é uma incógnita. Não muito diferente da forma em que a sociedade enxerga as pessoas de cores de pele diferentes.

No Brasil, esse tipo de pensamento levou ao presidente Epitácio Pessoa proibir a participação de jogadores negros na Seleção em 1912, o que durou até 1922. Em 1950, os vilões do Maracanazo são negros, especialmente o goleiro Barbosa. Coincidência? Ao defender a diversidade étnica das seleções, esse comentarista cai no mesmo argumento racista do futebol do início do século XX.

Ouvi certa vez que a seleção de futebol representa a classe operária daquele país. O caráter popular do nosso amado jogo me faz concordar com essa visão. Os rostos que enxergamos enfileirados para a cantar o hino nacional antes de uma partida da Copa do Mundo são bastante representativos daqueles rostos que encontramos nas ruas.

A globalização, os fluxos migratórios e os vestígios do colonialismo deixaram as sociedades mais diversificadas e o sentimento de nacionalidade cada vez mais difuso. Afinal, o que separa um país de outro é apenas uma linha imaginária. Em tempos de Copa do Mundo, onde hinos são entoados com toda a força e bandeiras nacionais tremulam nas arquibancadas, acaba-se colocando o holofote nesse tema que de simples não tem nada.

Ao se tentar fazer um elogio à diversidade étnica de uma seleção pode-se dar um tiro pela culatra e acabar rotulando pessoas de forma errada, dando margem a grupos conservadores e nacionalistas de usaram essa mesma diversidade étnica como culpada por eventuais fracassos esportivos. E todos sabemos que o futebol, e o esporte em geral, muitas vezes é utilizado como metáfora para a vida real sem necessariamente ter essa relação direta e pode servir de propaganda anto para ideais progressistas quanto para conservadores.

– Indicações

  • Textos:

https://www.vice.com/pt_br/article/435k3p/como-a-copa-de-2018-explica-o-nacionalismo-do-seculo-21

https://www.aljazeera.com/indepth/opinion/racist-myth-physical-african-football-team-180625130343810.html

https://www.gazetadopovo.com.br/esportes/copa/2018/que-sirva-de-licao-voce-nao-mexe-com-um-garoto-que-esta-com-fome-9ylew8hwxqdji455jnyv7f6vu

  • Documentário:

Les Bleus – Uma outra história da França (2016)

  • Podcast:

Fronteiras Invisíveis do Futebol #37 Argélia

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