Copa do Mundo e São João: Um privilégio dos corações quentes

A proximidade com a Copa do Mundo mexe com o imaginário popular. Se engana quem pensa que “ainda não estamos no clima”, que “não há clima”, que isso ou aquilo. Peço apenas que os deuses do futebol os perdoem, porque não sabem o que falam. Ou são céticos, desalmados, ou apenas transitam por grandes avenidas dentro de carros ou grandes centros comerciais. Sim, dentro de um shopping center, não vai ter clima de Copa. Espaços como esse, na verdade, não têm clima de nada. Não tem alma.

Rua Poraquê, em Brasília Teimosa, Zona Sul do Recife    Foto: Júnior Aguiar

Uma volta breve por comércios de bairros é capaz de desmistificar essa afirmação. Basta uma breve aventura por ruas como a Padre Lemos, em Casa Amarela, o reino da Zona Norte do Recife, para se ter uma noção do quanto a vida, e eventos como o Mundial, pulsa. Em espaços públicos e populares, eu garanto:  a Copa do Mundo já começou faz tempo. Na verdade, lugares assim nunca param. Para nada. É onde a vida de verdade acontece. Tem sempre algo começando e terminando, um organismo que tem vida própria e nunca morre, apesar das investidas do Poder Público em “organizar” (leia-se padronizar e tirar a magia do comércio de bairro) a área. E o Centro do Recife? Um formigueiro humano. Pobre daquele que nunca se perdeu por entre as artérias daquele organismo. Lembro-me dos tempos em que estudava no finado Marista – o primo pobre do São Luís, na avenida Conde da Boa Vista. Largava por volta das 12h e me metia pela rua do Hospício, Manoel Borba, Aragão, Gervásio Pires, Imperatriz. Me perdi diversas vezes. Mas foi por ali que me forjei como recifense. Deveria ser um pré-requisito para carregar a alcunha de cidadão da Cidade do Recife.

Então, fica complicado, de fato, para algumas pessoas que nunca puderam viver por entre ruas com esse perfil, a magia que são os momentos que antecedem a Copa do Mundo. Porque elas simplesmente transitam por lugares frios, com muito concreto, pouca gente na rua, desconhecidos, olhares para tela do celular, pessoas sem nome, sem rosto, quase não humanos. São rápidos, fast-food, ou um fast-life. Na verdade, tampouco se importam com o clima da Copa. Um evento para tirar fotos, sejam nos estádios ou até nos bares e eventos voltados para tal.

Agora, até os bares fecham e cobram ingressos pelas entradas. A lógica da arenização conseguiu sair do ambiente esterilizado das Arenas vazias e correr por entre as ruas das nossas cidades. É uma praga! Por exemplo, jogo de futebol passar em sala de cinema. Com direito a pipoca e refrigerante, poltrona reclinável e ar-condicionado. Eu, nem que ganhasse, me submeteria a uma profanação dessas. Esperar quatro longos e sofridos anos para terminar numa sala de cinema? Jamais! Em tempo, preciso fazer uma ressalva. Adoro salas de cinema. Mas para ver filmes. Geralmente, duas cervejinhas antes para esperar começar. Ou duas depois para ficar pensando melhor. Cada qual no seu espaço.

A Copa do Mundo, já começou, meus amigos. Desde o amistoso contra a Croácia. Pra ser mais preciso, começou na crítica a Adenor Leonardo Bacchi, nosso Tite, por ter convocado Taison, Fred ou Cássio, nomes mais questionáveis. Começou quando ele assumiu o time na sexta posição nas eliminatórias para esta Copa – que chegamos como favoritos, diga-se de passagem. Já era Copa quando fomos eliminados precocemente em duas edições da Copa América, sendo uma delas aquela tal que aconteceu nos Estados Unidos. O primeiro pensamento após 7×1 apocalíptico foi: E a próxima Copa?

Portanto, tem clima sim.  E as ruas tradicionais, nos bairros, estão tomadas pelas cores verde e amarela. Já é Copa “no” Mundo. E sempre vai ter aquela chateação de um ou outro que diz que o futebol é o ópio do povo. Que agora “o país está uma maravilha, sem problemas”, como escutei recentemente um ex-professor, que é âncora da rádio CBN Recife, num dos programas no início da tarde. Demasiadamente infeliz no comentário. Não gostar é um problema seu, meu senhor!

Só que, no nosso caso, o Nordeste, nós temos uma particularidade. Tem algo que se mistura com esse sentimento de Copa, que nos acomete a cada quatro anos, que nenhum lugar do Brasil pode se gabar de vivê-lo.

São João

Sítio da Trindade Foto: Luna Markman/G1

Não basta ser período de Copa. Tem que ser São João e Mundial acontecendo em sintonia. Tem que ter o Sítio da Trindade trazendo o clima do interior para o Recife, com direito a cidadezinha, barraquinhas, fogos e muito rala-bucho. As cidades do interior ardendo em alegria pelo período mais esperado do ano para elas, já que na grande cidade ainda há a disputa pelo Carnaval. De quatro em quatro anos, nós temos um privilégio, de viver o maior São João em clima de Copa em linha reta do Mundo. Até o feriado pro Nordeste é diferente. Sobrou até para o Corpus Christi, em 31 de maio, que deixou de ter a relevância de um feriado pra ceder espaço pro São João. E o mesmo mimimi de quem fala que não tem clima de Copa, também abre a boca pra falar do período junino.

A segunda maior cidade de Portugal, a cidade do Porto, tem São João bastante tradicional. Não conheço nem a celebração, tampouco tal urbe. Mas arrisco dizer, como um bom bairrista, que deve até ser boa, mas o nosso é inigualável. Milho assado e cozido, canjica, pé-de-moleque, pamonha, fogueira na frente de casa, fumaça ardendo os olhos e fogos barulhentos pra assustar os mais medrosos ou nos dar a ilusão da beleza com a celeridade que se esvai um vulcão.

E as bandeiras amarradinhas de um lado a outro da calçada, ganham as cores da seleção brasileira. Os matutos e matutas que se vestem, fazem questão de colocar, pelo menos, o lenço em amarelo pra fazer aquela corrente positiva. É certo que tem jogo e forró. E a gente bebe como se não houvesse amanhã. Porque, assim como anos bissextos, esse eclipse entre o junino e Copa do Mundo só poderá ser visto quatro anos mais afrente. É um mandato!

E aí aqueles amargosos que teimam em dizer que não existe mais clima de Copa do Mundo, também abrem a boca pra me falar que não há mais o engajamento popular para o São João. Não? Basta sair da sua bolha e visitar, por exemplo, a rua Poraquê, em Brasília Teimosa, pra ver que Copa e São João juntos só não acontecem no coração das almas frias.

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